“Para conhecer os homens é preciso vê-los agir. No mundo, onde exibem seus discursos e dissimulam suas ações, os vemos falar, mas na história elas são reveladas, e assim os julgamos sobre os fatos. Seus propósitos mesmo ajudam a os apreciar; pois, comparando aquilo que fazem àquilo que dizem, vemos ao mesmo tempo o que são e o que querem parecer: quanto mais se mascaram, melhor os conhecemos (…)
Os fatos! os fatos! e que cada um julgue por si mesmo; é assim que se aprende a conhecer os homens. Se formos sempre guiados pelo julgamento de alguém, veremos sempre por seus olhos; e quando eles nos faltarem, não veremos mais nada.
A história geralmente é defeituosa, ao procurar registrar somente os fatos que possamos fixar por nomes, lugares e datas; mas suas causas lentas e progressivas, que não podem ser fixadas desse modo, permanecem sempre desconhecidas.
Some-se a tudo isso que a história exibe bem mais as ações dos homens em suas vestimentas de gala; ela não expõe senão o homem público que se arrumou para ser visto, mas não o segue em sua casa, em seu gabinete, em sua família, no meio de seus amigos; ela só o exibe quando ele representa, e é bem mais suas vestes que sua pessoa que são exibidos“.
Émile, ou de L’éducation, de Jean-Jacques Rousseu. pp. 154-156. A tradução (livre) dos trechos acima é de La Vieja.
A historiografia oficial guasca – um virtuoso e viril estancieiro que mateia, ao pé do fogo, junto ao centauro dos pampas, em alguma boçoroca espaço-temporal entre 1835 e 1948 – tem contas urgentes a acertar com a Escola dos “Annales”.
Moysés Vellinho, Walter Spalding, Jorge Sallis Goulart, Arthur Ferreira Filho e Othelo Rosa, dentre outros, leram nossa história com um olho em um viés iluminista ingênuo e com outro no positivismo do XIX. A razão, sofrenando a vontade que se desgarrava como um potro sem dono nos espíritos guascas menos esclarecidos, justificava o comportamento da classe dominante, homens grandiosos alheios à irracionalidade que, naturalmente, escolhiam o melhor na gloriosa tarefa de conduzir os destinos dos selvagens locais. A superioridade moral e intelectual desses sujeitos da história era suficiente para que seus interesses representassem os de todos, mesmo que jamais sequer um único sujeito histórico menos esclarecido tenha sido ouvido. Pelo viés positivista, por sua vez, a certeza da descrição dos fatos tal como se passaram – uma ambição do estado positivo – garantia que, estando cada coisa em seu devido lugar – dominantes e dominados, esclarecidos e selvagens, estancieiro e peão -, naturalmente estávamos sendo conduzidos, por aqueles sujeitos da história, à perfeita orientação ética da sociedade guasca.
A história, portanto, girava em torno dos grandes acontecimentos, como guerras e revoluções, protagonizados por grandiosos e esclarecidos homens. O evento em si assume, dessa perspectiva, um papel fundamental, e os sujeitos que os protagonizam são os de virtude cívica e heroica. Trata-se, quase, de uma volta à mitologia; a força do mito como explicação de mundo é tamanha que relações entre fatos e pormenores quaisquer são absolutamente prescindíveis.
Não seria exagero afirmar que tais explicações da história guasca também mantinham estreita relação com a visão colonialista e com os nacionalismos do final do XIX. Os nativos, os negros escravos, o elemento miscigenado que restou e mesmo os espanhois eram vistos pela ótica da elite intelectualizada local, e o eurocentrismo de fins do XIX não foi senão uma consequência do modo colonialista de ver a relação entre metrópoles e colônias. “Os registros de viagem ou relatórios oficiais – afirma Voltaire Schilling, eram feitos por homens brancos, por militares, por comerciantes, por padres ou pastores, por funcionários coloniais ou por aventureiros europeus“, e foi a partir desses relatos que a história da colônia foi escrita pela metrópole. Nada que difira muito, portanto, da relação entre nossa historiografia oficial e suas fontes. De modo análogo, e guardadas as devidas proporções, o nacionalismo de fins do XIX, obcecado pela “formação da pátria e das virtudes cívicas que a encerravam” e pelas “origens últimas da nação“, também parece ter contaminado nossos historiadores oficiais. Tais obsessões são facilmente perceptíveis, por exemplo, na celeuma em torno da origem última do gaúcho rio-grandense (1), que se explicava pela necessidade, mais uma vez quase mítica, de se encontrar um “tipo ideal”.
Dentre as principais características da historiografia oficial (2) estão (i) a glorificação do gaúcho e (ii) o velho e bom mito da “democracia sulina“. Tal glorificação advém do enaltecimento (i.a) de um passado guerreiro, característica adquirida em função de nosso “caráter fronteiriço e militarizado“, (i.b) da heroicidade simbolizada pela revolução farroupilha, não à toa alcunhada de “decênio heroico“, quando a altivez e a honradez do gaúcho rio-grandense peleou pelas coxilhas contra o elemento subjugador em nome de um “liberalismo visceral“, idealização que consagrou os “ideais de 1835” no imaginário coletivo guasca como verdadeira “epopeia“, e, finalmente, (i.c) de um peculiar sentimento de nacionalidade (3), a despeito da esquizofrênica convivência simultânea, em seu nobre espírito, da vontade de se separar do Império e de, “à ponta de lança e pata de cavalo“, demarcar suas fronteiras. A tese da “democracia sulina“, por sua vez, segundo a qual estancieiros, escravos e peões eram iguais, ancora-se em fatos particulares para, daí, induzir um suposto fato genérico: do fato de todos participarem da mesma roda de chimarrão, do mesmo galpão e das mesmas lides de campo com indumentária semelhante se seguiria a inexistência de desigualdade social na estância, e, por conseguinte, a propalada “democracia sulina”. A dominação do estancieiro sobre seus subordinados nessa democrática convivência só era então possível graças à sua “superioridade inata, cultural e moral“. Sua superioridade era uma força da natureza, portanto. Como que emanava de seu telurismo.
Sobre essa igualdade e a dominação natural de estancieiros sobre seus subordinados é interessante ouvir Walter Spalding: a “igualdade entre senhores, escravos e peões, chefes e soldados“, não se originava do “relaxamento ou fraqueza dos superiores“, uma vez que “não eram os patrões, senhores, chefes ou comandantes que se rebaixavam até os escravos, peões ou soldados“, mas sim esses últimos que, certamente iluminados pela influência moral e cívica de seus senhores, “se elevavam, pela dedicação e pelo carinho até seus amos e superiores“ (4).
Curioso que, mesmo na República Velha, e especificamente durante a fratricida autofagia das classes dominantes guascas, a intelectualidade local tenha bebido nessas mesmas fontes; sequer o sectarismo das facções da classe dominante em luta intestina, ainda segundo Pesavento, deixou de buscar nos “ideais de 1835“, no “decênio heroico“, subsídios para a justificação de suas antagônicas posições, a despeito da “ruptura com a ordem latifundiária” então em curso.
Eis o gaúcho, portanto. A mais bem acabada síntese do eterno conflito entre razão e vontade, farol pelo qual eticamente se orientava o restante da nação.
Não vem de outro lugar nossa petulância esquizofrênica, nossa pretensa superioridade intelectual e moral em relação ao restante do Brasil, nosso separatismo irrefletido, nossa maior politização, nosso preconceito de raça, nosso orgulho inconsequente, desmedido e parlapatão.
Foi aí, então, que os Annales d’histoire économique et sociale, publicados por Lucien Fébvre e Marc Bloch, ampliaram o objeto da história para além do mero evento em si, habitat natural de homens da grandeza moral do “centauro dos pampas“, canalizando a atenção dos historiadores “para as mentalidades e para as transformações silenciosas, ‘os jogos subterrâneos de longa duração’“.
E de “jogos subterrâneos“, convenhamos, poucos entendem tanto quanto a direita guasca.
Quem passou os olhos sobre a ação civil pública de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público Federal contra a governadora Yeda Crusius (PSDB) e mais oito integrantes de seu governo sabe o quanto isso é verdade.
E isso nem tanto porque homens de bem tidos como guias morais guascas se associaram, em “societas delinquentium“, a fim de deliberadamente perpetrar, “continuadamente, sob diversas formas e com a máxima lucratividade possível“, condutas ímprobas, denotando absoluto desprezo pela coisa pública e ausência de limites sobre o certo e o errado.
Mas, sim, mais pelo modo como tudo isso foi conduzido.
“Jogos subterrâneos“, aliás, é uma expressão que sequer ombreia com o modo como essa “societas delinquentium” agia.
É nos esgotos desses subterrâneos que o desprezo pela coisa pública e a ausência de limites sobre o certo e o errado se evidenciam. Intrigas, ameças, chantagens, adultérios, concubinagem, negociatas, expressões chulas, vulgaridades, preconceito racial, apadrinhamentos, troca de favores, clientelismo, fisiologismo e promiscuidade entre interesses públicos e privados se entrecruzam, nessa rede cloacal, do mesmo modo como circulam, à céu aberto, as dejeções e imundícies no Arroio Dilúvio. Homens que deveriam zelar pela coisa pública negociam seus fétidos interesses no mercado das almas guasca e resgatam suas promissórias a custa do suor alheio. O dinheiro público é visto como uma coisa qualquer, sem dono ou função; dele apropriar-se a fim de regar finais de semana no litoral gaúcho com caviares e champagnes é o mesmo que dar a descarga depois de executar uma necessidade fisiológica qualquer. Propinas entram e saem com a mesma facilidade que almoços circunspectos, em locais e com homens públicos acima de qualquer suspeita. Penas cúmplices do achaque ao interesse público são compradas por trocados, e muitas vezes pagas com um simples meneio de cabeça em meio aos pares, de modo a conferir distinção ao cumprimentado.
Esses são os homens de bem guascas. Nós, que ainda nos envergonhamos, somos a chinelagem, os rastaqueras.
Esses interesses, no entanto, costumam ser esquecidos pela história, que depois só é lembrada pelos Pactos pelo Rio Grande da vida, pelos novos jeitos de governar.
É uma tarefa moral, portanto, manter viva a memória desses esgotos.
E os desinfetar, se possível.
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1. O gaúcho rio-grandense, segundo Moysés Vellinho, “descende em massa dos pioneiros, isto é, de lagunistas e bandeirantes, dos reinóis, de soldados provindos de diferentes pontos da colônia e de numerosos casais de açorianos, estes agora em grande parte modificados em seus hábitos pelas exigências do pastoreio. Acrescente-se, embora, a esses troncos dominantes um pouco de sangue índio e mesmo negro, ainda assim tudo nos ensina que o gaúcho rio-grandense sabia de onde vinha e não ignorava o papel que lhe cumpria nestes confins (…) Nossa posição de fronteiros fazia de cada homem válido um miliciano. Nem mesmo as crianças eram poupadas a essa contingência. Daí talvez aquele ar precocemente grave que Saint-Hilaire surpreendeu nas nossas crianças, que pareciam homens pequenos (…) Mais que uma simples expressão geográfica ou administrativa, o Rio Grande é, pelas suas raízes e pelo seu destino, um órgão palpitante do Brasil, senão, como pensava Joaquim Nabuco, o próprio coração do Brasil (…)” (Moysés Vellinho. O gaúcho rio-grandense e o gaúcho platino. Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, segunda série. Porto Alegre, Faculdade de Filosofia, Universidade do Rio Grande do Sul, 1957. pp. 65/66. Os grifos são meus). 2. Sandra Jatahy Pesavento. Historiografia e Ideologia, in RS: Cultura e Ideologia. Org. de José H. Dacanal e Sergius Gonzaga. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1980. Série Documenta, 3. pp. 67-76. 3. Esse sentimento de nacionalidade, inclusive, parece estar fortemente ligado à própria estância, ou seja, ao modo como a produção era organizada, no RS, durante os períodos colonial e imperial. Como nos ensina Walter Spalding, a “influência da estância na formação do Rio Grande, material e moralmente“, foi decisiva, devendo-se a ela “a integridade do solo até a conquista definitiva das Missões Orientais“, bem como “o caráter altivo, nobre e hospitaleiro do homem e a formação desse tipo sui-gêneris, – ‘o gaúcho brasileiro’, patriota como poucos” (Walter Spalding, in Gênese do Brasil-Sul. Porto Alegre, Livraria Sulina, 1953. p.37). 4. Walter Spalding, in Gênese do Brasil-Sul. Porto Alegre, Livraria Sulina, 1953. pp. 35/36.








15/09/2011 às 18:28
[...] nosso separatismo irrefletido, nossa maior politização, nosso preconceito de raça, nosso orgulho inconsequente, desmedido e parlapatão. Só isso é capaz de explicar afirmações como as de que “o Rio Grande do Sul deve servir de [...]
23/08/2009 às 4:16
Fabuloso o esforço de recuperar a origem do nariz empinado guasca. Pergunto pq tanta lenha na fornalha do Voltaire e da Nova História. A leitura do 18 de Brumário de Luís Bonaparte podem aduzir elementos analíticos valiosos.Parabéns