“Existem falsos professores
De canudos mal-havidos,
Chacais da literatura
Lordecos, subnutridos
De gestação duvidosa
Foram neste mundo parido (…)
No barro das orações
Meu destino são raízes
Que brotam das Reduções
– Onde o canto é a voz da pátria
Misteriosa das Missões.
Por isso, a bem da história
Hei de cantar altaneiro
Dizendo verdades cruas
No meu estilo campeiro
– Quando o Rio Grande nasceu
Já existia um missioneiro (…)” (1)
Quem semeia ignorância colhe hegemonia, costuma dizer La Vieja.
Um piquete tradicionalista resolveu homenagear o missioneiro Jayme Caetano Braun, durante o “Acampamento Farroupilha” deste ano, com uma “fachada temática” que reproduz a fachada da igreja da Redução de São Miguel Arcanjo, da qual só restam ruínas na hoje São Miguel das Missões, no noroeste do estado.

Contudo, as histórias da construção do RS pelo homem que o acampamento farroupilha entroniza e das Missões só se cruzam na dor.
Pretender integrá-las, como se harmonicamente houvessem coexistido, é um ultraje à memória.
A conquista definitiva da Província de São Pedro pela coroa portuguesa começou pelo estabelecimento de postos de controle estratégicos, localizados além de seus imaginários limites de então. Colônia do Sacramento, em 1680 – hoje território uruguaio -, e Laguna, em 1684, então ponto extremo-sul da colônia, pelo menos de acordo com Tordesilhas – hoje território catarinense -, deram início à colonização efetiva da Capitania Del Rei, doada em 1676 à família Correia de Sá (Spalding, 1953:16). Antes disso, os portugueses só a visitavam a fim de praticar a preagem de nativos, muitos deles já catequizados pelos jesuítas espanhóis.
O “homem-centauro” (Spalding, 1953:26) começou a se amalgamar nas primeiras incursões de lagunistas – netos e filhos de bandeirantes e descendentes de paulistas, sobretudo de Sorocaba, estabelecidos em Laguna -, a partir de 1690. Além dos objetivos comerciais – a compra e troca do gado já então abundante nas vacarias missioneiras, que se estendiam dos Sete Povos até a região da atual Bagé, passando antes pelo centro da província -, havia a necessidade estratégico-militar de se abrir caminho até Sacramento, o que fez Francisco de Brito Peixoto antes mesmo da primeira sesmaria da província ser oficialmente doada por El-Rei a Manuel Gonçalvez Ribeiro, em 1732, nos “Campos do Tremandy“, atual Tramandaí. Estâncias eram fundadas no trajeto entre Laguna e Sacramento, tanto no litoral como mais ao centro, já em direção às vacarias missioneiras. Os lagunistas fundaram suas próprias, a de Cima da Serra e a Vacaria do Mar, mais ao sul, antes mesmo de Jerônimo De Ornelas receber, em 1740, ano em que fundaram Santo Antônio da Patrulha, a posse definitiva da gleba da atual Porto Alegre, onde possuía estância desde 1732.
As escaramuças em Sacramento, porém – a Espanha, desde Buenos Aires, cobiçava a região, ou ao menos não queria por perto nenhuma fortificação portuguesa -, levaram Portugal a adentrar a então província mais ao nordeste da colônia. José da Silva Paes, então, chega em 1737 à região da atual Rio Grande, onde funda o Forte Jesus, Maria, José, ponto de partida para o povoamento regular da província (Spalding, 1953:23). Em 1751 chegam ao Forte os primeiros casais açorianos, alguns dos quais seguem viagem para as margens do Guaíba, antigo Porto de Viamão e Porto do Dorneles, a partir de então “Porto de São Francisco dos Casais“.
O povoamento da província se deu, como se vê, em direção ao nordeste, a partir de Sacramento, e em direção ao sul, a partir de Laguna, o que configurou uma ocupação inicial prepoderantemente litorânea (2).
Ocorre, porém, que o ouro da província não estava em seu litoral.
Desde 1626 – a partir da formação, em 1607, da Província Jesuítica do Paraguai, em um território distribuído entre trechos da região sul do Brasil, da Argentina, do Paraguai e do Uruguai, atribuído à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas, quando o Padre Roque Gonzalez fundou a redução de São Nicolau, dando início ao primeiro ciclo jesuítico na “Banda Oriental” do Uruguai (1626/1637), finalizado por conta das sucessivas bandeiras de apresamento paulistas na região – até 1682 – com a fundação de São Francisco de Borja, primeiro dos “Sete Povos das Missões, quando então teve início o retorno aos trabalhos de evangelização na Banda Oriental através da reocupação das terras do “Tape”, movimento motivado pela fundação, pelos portugueses, da colônia do Sacramento, em 1680 (Neumann, 2000:75) – o gado vacum, introduzido no Paraguai e no Uruguai pela Companhia de Jesus, e na Capitania Del Rei pelo jesuíta Cristóvão de Mendonça, em 1634, espalhava-se sem controle pelas estâncias das reduções (3), que se estendiam da região dos Sete Povos até uma linha imaginária que pode ser traçada entre o que hoje é Bagé, Santa Cruz do Sul e Vacaria.
Era preciso, portanto, partir em direção ao centro da província. Já em 1737, quando da fundação do Forte Jesus, Maria, José, portugueses da Província metropolitana de Trás-os-Montes, provindos de Sacramento, receberam terras e licença para caçar o gado missioneiro e uruguaio. Foi quando teve início, então, “o clan ruralista do tropeiro-soldado, do estancieiro-chefe militar (…)” (Spalding, 1953:25). Os “sesmeiros de Viamão e redondezas (…) iam-se espalhando pelo interior“. O Rio Grande de São Pedro do Sul “começa realmente a viver. Torna-se português e inicia sua existência de pervigil da fronteira sulina, dominando o meio, criando um tipo especial de homem, – o homem-centauro, – ruralista e soldado (…)” (Spalding, 1953:26) (4).
Pelo menos desde a fundação do Forte Jesus, Maria, José, em 1737, portanto, Portugal não mais se interessava, como dantes, pela região ao redor de Sacramento, foco de permanente conflito com jesuítas e nativos catequizados. O gado vacum que abundava pelo atual Uruguai desconhecia fronteiras estabelecidas por tratados, de modo que também poderia ser caçado a partir da promissora região da hoje Rio Grande. A coroa espanhola, por sua vez, já havia se esbaldado o bastante com os desbravadores serviços jesuítas, e chegava a se sentir ameaçada politicamente na região pelo “reino espiritual“, fora de seu controle, criado pelos jesuítas, os únicos aos quais os nativos catequizados obedeciam. Conforme Mário Maestri, “O crescente desenvolvimento semi-autônomo de fato de uma verdadeira nação guarani-missioneira desagradava mais e mais as classes dominantes crioulas e a Coroa espanhola“. Donde, a expulsão da Companhia de Jesus, em 1768, dos territórios luso e espanhol na região – quando, então, o governo dos 30 Povos das Missões passou a ser exercido por administradores leigos espanhóis -, e sua extinção, em 1773, pela Bula Dominus ac Redemptor.
Também é desse tempo a “Relação Abreviada da República dos Jesuítas“, do Marquês do Pombal, que lhes atribuiu a tentativa de criação de um “Império Temporal Cristão” na região das missões. Pombal os acusou de conspiração e os expulsou de Portugal em 1759, não sem antes confiscar seus bens.
Antes disso, porém, a solução encontrada foi a de conciliação dos interesses imperiais na região, através do Tratado de Madrid, em 1750, que determinava a troca do território dos Sete Povos das Missões pela Colônia do Sacramento, primeira tentativa de fixar a fronteira entre os domínios Ibéricos na região Platina (Neumann, 2000:90).
O Artigo 16 do referido Tratado dizia o seguinte:
“Das povoações ou aldeias que cede Sua Majestade Católica na margem Oriental do Uruguai, sairão os Missionários com todos os móveis, e efeitos, levando consigo os índios para os aldear em outras terras de Espanha; e os referidos índios poderão levar também todos os seus bens móveis e semoventes, e as armas, pólvora e munições que tiverem; em cuja forma se entregarão as povoações à coroa de Portugal com todas as suas casas, igrejas e edifícios, e a propriedade e posse do terreno (…)“.
De uma hora para outra, graças aos interesses imperiais na região, os nativos missioneiros deveriam deixar as terras nas quais residiam antes da chegada de portugueses e espanhóis levando o que pudessem carregar, entregando ao português, inimigo histórico contra o qual nutriam elevado grau de ódio (Neumann, 2000:90), suas casas, igrejas, edifícios e propriedade e posse de seus terrenos. História, tradição e cultura, em outras palavras, a despeito do processo de aculturação ao qual foram submetidos pelos jesuítas antes mesmo desse ultraje, que vieram resolver nas Américas as diferenças da Igreja Católica com Martinho Lutero.
Não é preciso muito esforço para se supor que “Em toda América Hispânica surgiram manifestações de contrariedade a submissão de Madri. De várias áreas chegavam notícias de desagrado a decisão tomada pelo monarca Espanhol. A mais extremada foi sem dúvida a oposição dos guarani, acompanhada do repúdio dos Superiores da Companhia de Jesus, e o conseqüente desacato dos índios às ordens de transmigração. Como aceitar a entrega dos Sete Povos aos seculares inimigos portugueses?” (5).
Em junho de 1753, em resposta à carta de José de Andonaegui, governador de Buenos Aires, que sugeria aos nativos aceitarem a transmigração, os caciques de cada redução argumentaram a respeito do seu direito sobre as terras e de seus inestimáveis trabalhos de guerra prestados, exatamente, contra os portugueses. Todas as reduções orientais manifestaram sua insatisfação com as ordens da coroa, mas a oposição mais radical ao Tratado entre os impérios ibéricos partiu dos nativos das reduções de São Miguel e São Nicolau. Ou seja, exatamente das populações pertencentes às reduções que foram instaladas no Tape durante o chamado primeiro ciclo jesuítico na Banda Oriental do Uruguai, entre 1626 e 1637, deslocadas para a outra margem do rio diante das investidas dos bandeirantes (Neumann, 2000:91), quando então heróica resistência à derradeira tentativa de extinção dos trinta Pueblos do Paraguai, na batalha fluvial de M’Bororé, em 1641, impôs acachapante derrota a quase dois mil bandeirantes chefiados por Jerônimo Pedroso de Barros, fato que, se não foi suficiente para garantir a permanência dessas reduções na banda oriental do rio, pôs fim às bandeiras de apresamento na região. Segundo Mário Maestri, “Talvez vinte mil missioneiros tenham sido arrastados para as capitanias portuguesas como cativos. Antes da viagem, matavam-se os caciques e os guerreiros mais combativos, para que não organizassem revoltas. Os velhos e as crianças eram executados ou abandonados, para que não atrasassem a marcha terrível“.
Para substituir os nativos nas reduções dos Sete Povos das Missões, Portugal planejava instalar casais açorianos na região (6). Foram organizadas, então, pelos reinos ibéricos, as chamadas “Partidas de Limites“, encarregadas pelas coroas da demarcação dos limites territoriais de cada uma delas. Tocou a Gomes Freire de Andrade, nomeado Comissário de Portugal para os assuntos de demarcação do Tratado, pelo lado português, o comando de 1.600 homens, arrebanhados das tropas imperiais mineiras, cariocas, paulistas e gaúchas, e ao Marquês de Valdelírios (ou Val de Lírios), pelo lado espanhol, o comando do exército demarcador dessa coroa.
Tais partidas, porém, encontraram resistência.
Na primeira delas, em 1752, o exército espanhol esperou o português, que se deslocou pelo litoral gaúcho, em território uruguaio, de onde partiram, entrando pelo flanco sudoeste do estado, em direção à atual Bagé. Os trabalhos demarcatórios, no entanto, foram impedidos pelos missioneiros, liderados por Sepé Tiaraju, o que obrigou ambos os exércitos a darem marcha-ré.
Na segunda delas, em 1754, o conflito foi inevitável, uma vez que a solução encontrada pelas coroas a fim de dissudiar os missioneiros foi a evacuação, pelas armas, dos Sete Povos, o que deu início à chamada “Guerra Guaranítica“.
Os exércitos, no entanto, mais uma vez foram surpreendidos pela resistência missioneira, o que os obrigou a assinar, a contragosto, um armistício.
Em janeiro de 1756, nos atuais territórios uruguaios, um bem armado exército luso-espanhol, composto por 2.600 homens, partiu para as Missões, dando início à terceira partida demarcatória, disposta a pôr por terra a resistência missioneira. Já no atual estado do RS, as tropas ibéricas sofreram diversas emboscadas, a tática preferida dos missioneiros. Foi numa delas, ironicamente, no início de fevereiro, que tombou em combate Sepé Tiaraju, comandante das tropas de São Miguel (7). Os missioneiros restantes, em torno de 1.800, armados de lanças, arcos e flechas e peças de artilharia de bambu forradas de couro, ainda tentaram negociar com o exército opressor. Rejeitando o pedido, “os canhões portugueses e espanhóis abriram fogo em forma coordenada, desorganizando as desmotivadas milícias missioneiras. A seguir, iniciou-se o massacre de talvez mil guaranis, perseguidos e executados“, no episódio que ficou conhecido como a Batalha de Caiboaté, na região da atual São Gabriel, onde recentemente um trabalhador rural foi assassinado, pelas costas, em ação policial a mando, ironicamente, da bandeira de apresamento moderna da paulista Yeda Crusius, atual governadora do RS.
Era o fim da resistência missioneira organizada. Espoliados culturalmente por jesuítas, franciscanos e dominicanos espanhóis, num primeiro momento, e arrancados de suas terras para a escravidão no centro do país pelos portugueses, num segundo momento, tombavam, por fim, ante ambos, agora unidos por vicissitudes que a história soube guardar na galeria das infâmias humanas.
Tamanho era o descaso português e espanhol com a vida dos habitantes de direito das Américas que, em 1761, um novo acordo entre as coroas, o Tratado de El Pardo, desfazia a troca negociada pelo Tratado de Madrid, e isso porque, não tendo logrado êxito absoluto em sua missão de colonização das Missões devido à resistência guarani, Portugal se recusou a cumprir sua parte do Tratado, a entrega de Sacramento.
Em 1777, sob os efeitos da Guerra dos Sete Anos (1756-1763) – entre franceses e ingleses, o que obrigou Espanha, aliada dos primeiros, e Portugal, dos segundos, a novos enfrentamentos -, quando até a já então Vila de Rio Grande caiu sob domínio espanhol, os impérios ibéricos assinaram o Tratado de Santo Ildefonso, pelo qual Portugal reconhecia a soberania espanhola sobre Sacramento e as Missões, em troca da Ilha de Santa Catarina, tomada pelos espanhóis também como consequência da guerra entre França e Inglaterra. Só em 1776, segundo Mário Maestri, “a vila e porto de Rio Grande e as terras do interior rio-grandense seriam retomadas, por poderoso exército lusitano de sete mil homens“, fato que ensejou a tomada de Sacramento e da referida ilha pelos espanhóis, posteriormente devolvida aos portugueses pelos termos de Santo Ildefonso.
Um aspecto interessante desse tratado foi a criação dos “campos neutrais“, faixa de terra sobre a qual nem Portugal e nem Espanha teriam jurisdição. Nestes campos, habitados por desertores de ambos os lados, contrabandistas, índios missioneiros fugidos dos seus respectivos povos, assim como por índios charruas e minuanos, foi criado José Borges do Canto, de pai açoriano e mãe nascida em Sacramento, um dos empreendedores da conquista definitiva das Missões para Portugal.
Foi só em 1801 que o território missioneiro se tornou, definitivamente, português, e isso por conta da ação de tropas irregulares luso-brasileiras, dentre elas a de Borges do Canto, constituídas basicamente já pelos “centauros dos pampas”. Na carona dessa invasão, o Tratado de Badajós, também de 1801 – que pôs fim à guerra entre Espanha e Portugal, então motivada pelas invasões napoleônicas -, determinava que Sacramento passaria – de direito, pois de fato já o era desde 1776 – para o controle espanhol. Como Badajós foi omisso quanto à região missioneira, Portugal ficou com a posse dos territórios recentemente ocupados pelo “homem-centauro”.
Vale destacar, nesse sentido, que “A efetiva compreensão do ataque dos súditos de Portugal aos Sete Povos, no entanto, não pode ser compreendida fora do contexto geral do Império português, inclusive dos significados que neste possuía a conquista territorial. Em vários momentos históricos da América portuguesa, a conquista territorial foi efetuada pelos próprios colonos, independente da existência de ordens régias para tal fim, através da qual buscavam benefícios concretos, como a anexação de terras e de homens, geralmente índios, bem como visavam a obtenção de mercês outorgadas pelo Rei em reconhecimento aos serviços prestados” (8).
Também caminha nesse sentido a tese defendida por Walter Spalding, segundo a qual a “influência da estância na formação do Rio Grande, material e moralmente“, foi decisiva, devendo-se a ela “a integridade do solo até a conquista definitiva das Missões Orientais“, bem como “o caráter altivo, nobre e hospitaleiro do homem e a formação desse tipo sui-gêneris, – ‘o gaúcho brasileiro’, patriota como poucos” (9).
E essa influência material e moral, responsável pelo caráter altivo e nobre desse tipo sui-generis, só fazia aumentar desde 1776, como nos ensina Mário Maestri:
“Com a expulsão dos espanhóis de Rio Grande, em 1776, charqueadas surgiram nas margens das lagoas, no rio Jacuí, em torno de Porto Alegre e sobretudo nas margens do arroio Pelotas. Desde então, as necessidades das capitanias do Brasil passaram a ser satisfeitas pelas charqueadas sulinas, que exploravam duramente a mão-de-obra escravizada.
No mesmo sentido, os numerosos oficiais trazidos para a conquista de Rio Grande receberam ou apoderaram-se de sesmarias, valorizadas agora pela necessidade de gado das charqueadas. Em pouco tempo, as terras acessíveis do pampa esgotavam-se. Em 1785, poucos anos após a produção sistemática de charque, 64,22 % das 841 propriedades sulinas recenseadas tinham mais de 1.000 ha.
(…) A privatização definitiva dos territórios missioneiros ocorreria poucos anos mais tarde (…).
A abertura do caminho entre os Campos de Vacaria e as Missões acelerou a substituição das antigas estâncias missioneiras por latifúndios pastoris luso-brasileiros e à ocupação do Planalto Médio, onde surgirão, a seguir, as povoações de Cruz Alta, Passo Fundo, Campo do Meio, Lagoa Vermelha, etc.
Desde 1816, o cabildo dos povos missioneiros e administradores luso-brasileiros venderam, a preços mínimos, ou concederam, gratuitamente, terras missioneiros e terrenos não designados, ensejando que militares, tropeiros e criadores, chegados de São Paulo, Curitiba, Lages e Laguna, organizassem fazendas criatórias nas antigas estâncias guaraníticas.
Segundo Nicolau Dreys, a população missioneira caíra de vinte mil missioneiros, em 1801, para oito mil, em 1814. O ‘Relatório ao Conselho Geral’, de dezembro de 1830, de Caetano Lopes Gama, presidente da província sulina, sentenciava: ‘Os Sete Povos [...] estão quase extintos. Santo Ângelo, São João, São Luiz e São Nicolau não têm um só índio. São Borja, São Lourenço e São Miguel, apenas 38′.
Expropriadas de suas estâncias coletivas, as populações missioneiras cruzaram o rio Uruguai ou dispersaram-se pelas fazendas sulinas, onde se empregaram, permanente ou periodicamente, como trabalhadores pastoris, dando origem, com as populações escravizadas e a comunidades pampianas aculturadas, às classes subalternas rio-grandenses dedicadas às atividades pastoris.
Com os anos, à expropriação das terras seguiu-se a própria expropriação da memória. Os missioneiros, agora peões pobres, sequer recordavam-se dos tempos gloriosos em que senhoreavam solidários as imensas e frutíferas fazendas comunitárias dos Sete Povos Missioneiros“.
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1) Em “Regionalismo, historiografia e memória: Sepé Tiaraju em dois tempos” (Anos 90, América do Norte, 11, dez. 2004), Letícia Borges Nedel apresenta interessante análise de “Defeito”, de Noel Guarany, a fim de, retomando o célebre “Caso Sepé” – que nos anos 50 mobilizou a intelectualidade gaúcha em torno da polêmica a respeito do valor histórico de Sepé Tiaraju e da conveniência ou não de, em função desse valor, erguer um monumento em homenagem aos duzentos anos de sua morte – e a partir da “problemática dos lugares”, desenvolvida por Pierre Nora – segundo a qual, grosso modo, é a memória elemento constituído e instituidor do real, figurando como um fator transformador na evolução histórica de uma sociedade -, explorar o modo como diferentes processos e atores laboram a formalização de memórias coletivas, focalizando especificamente as relações entre regionalismo e identidade nacional no Rio Grande do Sul. Retomando posições divergentes e mesmo antagônicas quanto ao ‘peso’ das Missões na configuração da memória local, a autora examina formas oficiais e subterrâneas de representação da ancestralidade gaúcha. Segundo a autora, “tais formas se encontram vinculadas a um discurso regionalista patenteado, de um lado, pela ação do Estado em suas relações com os intelectuais e, de outro, por sujeitos identificados com a cultura popular e com o tradicionalismo“. Noel Guarany, que “toma a experiência jesuítica como marco inicial de ocupação do RS” – o que fora tradicionalmente negado pelos historiadores oficiais, alinhados pela autora, por sua vez, entre aqueles intelectuais -, representa esse sujeito identificado com a cultura popular (e não, ao contrário do que sugere a autora, com o tradicionalismo, pelo menos daquele que bebeu nas fontes na historiografia oficial). O Passado, para Letícia Nedal, “não se mantém vivo como uma espécie de precipitação (no sentido que a química dá para a palavra) da experiência em nossa consciência através do tempo. Fosse assim, não teríamos memórias herdadas e aprendidas no próprio processo de socialização pelo qual passamos ao longo da vida. Na verdade, a presentificação do passado depende de um trabalho ativo de rememoração que, além de inventivo e seletivo, é político porque regido pela interação entre atores e grupos situados em posições freqüentemente desiguais na escala social“. Daí falar a autora em “memórias em disputa“, procurando chamar a atenção “para as relações de interdependência entre História e memória, observando que o conhecimento acerca das arenas de luta pelo controle da cultura e dos imaginários permite recolocar a questão dos estilos de construção historiográfica, relacionando-as à identidade social do historiador“.
Especificamente sobre a payada, da qual transcrevemos acima os versos iniciais das duas partes que lhe integram – que, segundo a autora, “figura como uma espécie de libelo tardio contra a versão histórica oficial defendida pelos pareceristas do IHGRS” -, anota Letícia Nedel que, “organizada em duas partes, tem a primeira estruturada como um desafio recitado, ao longo do qual a referência ao caráter suspeito e ilícito do discurso acadêmico sobre a cultura é uma constante. Já a segunda parte é cantada em ritmo milongueiro, propondo os fundamentos do culto às tradições missioneiras e delegando ao ‘payador indomado’ a missão de manifestá-las, de transmiti-las e de zelar por sua integridade“. La Vieja recomenda fortemente o artigo de Letícia Borges Nedel.
2) “As primeiras sesmarias, concedidas em 1732, ficavam todas no ‘quadrante litorâneo’, onde assentariam moradas os primeiros proprietários, a título legal, de nesgas de terras rio-grandenses. Em torno da estrada de Laguna à Colônia do Sacramento, via inicial de comunicação, os pioneiros vão lançando os fundamentos da possse portuguesa, os pontos de partida das linhas de penetração com que eles, e depois os açorianos, cobrirão (…) o território do Rio Grande do Sul“. (Othelo Rosa. A formação do Rio Grande do Sul. Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, segunda série. Porto Alegre, Faculdade de Filosofia, Universidade do Rio Grande do Sul, 1957. p. 18).
3) Cada redução, e na região missioneira foram sete, tinha uma ou duas estâncias, onde o gado vacum era criado solto. Algumas dessas estâncias distavam até 300 km da sede da redução, onde ficava seu “povo”. Segundo Mário Maestri, “Em 1634, cada missão recebera umas cem cabeças de gado para formar rebanhos. Os animais foram deixados nas margens meridionais do Jacuí, para que se reproduzissem. Como as condições ambientais da região – pampa – eram excelentes, as manadas de gado reproduziram-se exuberantemente e expandiram-se para o litoral, à busca de pastagens, alcançando o Atlântico e avançando para o sul, dando origem às vacarias da região – campos de gado selvagem. Os vaqueiros missioneiros atravessavam periodicamente o rio Uruguai para levar rebanhos das vacarias para as estâncias, formadas entre o rio Jacuí e a lagoa dos Patos.As estâncias eram áreas menores onde os gados eram confinados para que se realizassem periodicamente rodeios. As invernadas eram pequenas estâncias, próximas às missões. Sobretudo os acidentes geográficos e valas com plantações de espinheiros e outras barreiras mantinham os gados nas estâncias. Posteiros missioneiros controlavam as passagens por onde os gados escapavam. Os campos do atual Rio Grande do Sul povoados pelos gados selvagens formavam uma enorme hacienda trilhada continuamente pelos vaqueiros missioneiros à busca dos animais. As vacarias do Mar, nas pastagens que iam da margem direita do rio Camaquã até o rio Negro, eram mantidas como uma espécie de reserva estratégica“.
4) “Desses nobres lagunistas e paulistas, a maioria de Sorocaba, pobres no geral, humildes e rudes, mas fortes e enérgicos, que acompanhavam os maiorais e, com eles, se radicavam à gleba conquistada, nasceu, unido ao açoriano (…), o rio-grandense, o gaúcho em todo seu esplendor e força, liberto já dos preconceitos de malandragem e inferioridade (…)” (Walter Spalding. Gênese do Brasil-Sul. Porto Alegre, Livraria Sulina, 1953. p.23). O gaúcho rio-grandense “descende em massa dos pioneiros, isto é, de lagunistas e bandeirantes, dos reinóis, de soldados provindos de diferentes pontos da colônia e de numerosos casais de açorianos, estes agora em grande parte modificados em seus hábitos pelas exigências do pastoreio. Acrescente-se, embora, a esses troncos dominantes um pouco de sangue índio e mesmo negro, ainda assim tudo nos ensina que o gaúcho rio-grandense sabia de onde vinha e não ignorava o papel que lhe cumpria nestes confins (…)” (Moysés Vellinho. O gaúcho rio-grandense e o gaúcho platino. Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, segunda série. Porto Alegre, Faculdade de Filosofia, Universidade do Rio Grande do Sul, 1957. pp. 65/66). “O elemento branco seria constituído de portugueses do continente, de indivíduos de procedência interna, como o lagunense, o paulista, o mineiro e o carioca, e predominantemente, de portugueses das ilhas dos Açores (…) núcleo central do nosso povoamento” (Othelo Rosa. A formação do Rio Grande do Sul. Fundamentos da Cultura Rio-Grandense, segunda série. Porto Alegre, Faculdade de Filosofia, Universidade do Rio Grande do Sul, 1957. p. 15).
5) Eduardo Neumann. Fronteira e identidade: confrontos luso-guarani na Banda Oriental 1680-1757. Revista Complutense de Historia de América, 2000, vol. 26. pp 73-92, p. 90.
6) Conforme Mário Maestri, “Para ocupar as Missões, a Coroa portuguesa mandou vir camponeses sem ou com pouca terra das ilhas dos Açores e da Madeira. Os casais assentados receberiam 272 hectares de terra, ferramentas, sementes, dinheiro, etc., tudo gratuitamente. Até 1754, três mil ilhotas associaram-se aos 1.500 povoadores luso-brasileiros da região“.
7) Numa perseguição que se seguiu à uma emboscada, a montaria de Sepé Tiaraju teria tropeçado em um desnível do terreno, lançando-o ao solo. Embora ressalve que a “documentação é divergente e imprecisa sobre os acontecimentos posteriores“, Maestri afirma que “possivelmente capturado e identificado, devido ao livro de orações e cartas que levava consigo, Sepé teria sido torturado por seus algozes – ‘queimado com pólvora ainda quando aspirando’ e martirizado ‘de outras maneiras’. A seguir, Sepé teria sido justiçado com um tiro de pistola, pelo próprio governador de Montevidéu, talvez para conquistar a honra da morte de um chefe missioneiro. O corpo de Sepé, decapitado, teria sido recuperado pelas tropas missioneiras, para enterramento de fortuna. Acredita-se que o chefe missioneiro morreu lutando em algum ponto da cidade de São Gabriel“.
8) Elisa Frühauf Garcia. A ‘conquista’ dos Sete Povos das Missões: de ‘ato heróico’ dos luso-brasileiros a campanha negociada com os índios.
9) Walter Spalding. Gênese do Brasil-Sul. Porto Alegre, Livraria Sulina, 1953. p.37.








16/09/2011 às 4:30
[...] “Hay os que se perdem por perder raízes que não acham mais”, é bem sabido. Mas também “Hay os que se encontram por voltar às fontes dos seus ancestrais“, como bem disse o missioneiro Cenair Maicá. [...]
15/09/2011 às 18:29
[...] “Hay os que se perdem por perder raízes que não acham mais”, é bem sabido. Mas também “Hay os que se encontram por voltar às fontes dos seus ancestrais", como bem disse o missioneiro Cenair Maicá. [...]