La Vieja chegou a pensar que, nessa Copa do Mundo, nada poderia ser mais ridículo do que os casacos de Dunga.
Todo brasileiro que batalha é brahmeiro.
Ora, sou um brasileiro que batalha.
Logo, sou um brahmeiro?
Não, não sou um brahmeiro.
Aliás, conheço poucos que sejam.
Ora, se algum brasileiro que batalha não o é, contradizer isso, então, seria brigar com um fato. Donde, simplesmente ser falso que todo brasileiro que batalha o seja.
No entanto, algum gênio incompreendido da publicidade sustentou a verdade de tal proposição, insistentemente, durante toda a recente Copa do Mundo.
Todo apelo é válido, na linha de montagem publicitária, para se vender determinado produto. Recorrer a clichês que transmitem ideia ou sentimentos de unidade pátria é só mais um deles. No caso em questão – todo brasileiro que batalha é brahmeiro –, o objetivo é convencer o consumidor de que, se ele realmente é um brasileiro batalhador – e poucos não se veem assim -, precisa consumir determinado produto, pois todos que o são, assim o fazem. O sujeito não pode, nesse caso, ser um brasileiro batalhador e não ser brahmeiro.
Devemos creditar esse tipo de raciocínio à má-fé ou à pura e simples ignorância?
Ninguém pode ser petulante a ponto de supor que x consumirá y porque, supostamente, todo x assim o faz. Afora a petição de princípio – toma-se como verdadeiro exatamente o que precisa ser provado –, trataria-se de subestimar a inteligência alheia de um modo ofensivo. Não creio que publicitários sejam ignóbeis a esse ponto. Também seria supor, no final das contas, que publicitários sabem o que é uma falácia. A maioria deles, em sala de aula, costuma manter solene distância das cadeiras que são oferecidas na filosofia, o que diminiu sensivelmente as chances de terem cursado alguma que ensine rudimentos de lógica formal.
É provável, portanto, que se trate de ignorância.
Não, porém, de qualquer ignorância. Fala-se daquela estupidez abobada estampada na face de nove entre dez gênios incompreendidos, homens e mulheres que, podendo ter sido artistas plásticos de renome, lógico-matemáticos de mão-cheia ou brilhantes escritores, preferiram exercer a arte publicitária. Essa doce, inebriante e sedutora idiotia os convence, em geral, de que cada peça publicitária é uma espécie de obra de arte, digna da imortalidade nas mais renomadas galerias.
Nesse ritmo, até rótulos de sopa, sem demora, estarão sendo expostos em museus.
Sócrates costumava se queixar, entre seus pares, do culto ao belo, aos atletas e à retórica – representada pelos sofistas de então -, males que minavam a – por ele malvista – democracia ateniense. Sujeita à retórica, a administração e as coisas da pólis navegariam ao sabor dos ventos, tal como as palavras dos sofistas.
A publicidade comercial, bem como as propagandas política e eleitoral – essa última, sobretudo –, fazem-nos pensar o quanto evoluímos, sob tal aspecto, bem como o quanto de nossa cumplicidade contribuiu para tal fim.











