Arquivo para outubro, 2010

Professores e Pesquisadores de Filosofia Apoiam Dilma Rousseff para a Presidência da República

07/10/2010

 

Os professores e pesquisadores de Filosofia abaixo assinados manifestam seu apoio à candidatura de Dilma Rousseff à Presidência da República. Eis suas razões:

“Os valores de nossa Constituição exigem compromisso e responsabilidade por parte dos representantes políticos e dos intelectuais

Nesta semana completam-se vinte e dois anos de promulgação da Constituição Federal. Embora marcada por contradições de uma sociedade que recém começava a acordar da longa noite do arbítrio, ela logrou afirmar valores que animam sonhos generosos com o futuro de nosso país. Entre os objetivos da República Federativa do Brasil estão “construir uma sociedade livre, justa e solidária”, “garantir o desenvolvimento nacional”, “erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais”.

A vitalidade de nossa República depende do efetivo compromisso com tais objetivos, para além da mera adesão verbal. Por parte de nossos representantes, ele deve traduzir-se em projetos claros e ações efetivas, sujeitos à responsabilização política pelos cidadãos. Dos intelectuais, espera-se o exame racionalmente responsável desses projetos e ações.

Os oito anos de governo Lula constituíram um formidável movimento na direção desses objetivos. Reconheça-se o papel do governo anterior na conquista de relativa estabilidade econômica. Ao atual governo, porém, deve-se tributar o feito inédito de conciliar crescimento da economia, controle da inflação e significativo desenvolvimento social. Nesses oito anos, a pobreza foi reduzida em mais de 40%; mais de 30 milhões de brasileiros ascenderam à classe média; a desigualdade de renda sofreu uma queda palpável. Não se tratou de um efeito natural e inevitável da estabilidade econômica. Trata-se do resultado de políticas públicas resolutamente implementadas pelo atual governo – as quais não se limitam ao Bolsa Família, mas têm nesse programa seu carro-chefe.

Tais políticas assinalam o compromisso do governo Lula com a realização dos objetivos de nossa República. Como ministra, Dilma Rousseff exerceu um papel central no sucesso dessa gestão. Cremos que sua chegada à Presidência representará a continuidade, aprofundamento e aperfeiçoamento do combate à pobreza e à desigualdade que marcou os últimos oito anos.

Há razões para duvidar que um eventual governo José Serra ofereça os mesmos prospectos. É notório o desprezo com que os programas sociais do atual governo – em particular o Bolsa Família – foram inicialmente recebidos pelos atores da coligação que sustenta o candidato. Frente ao sucesso de tais programas, José Serra vem agora verbalizar sua adesão a eles, quando não arroga para si sua primeira concepção. Não tendo ainda, passado o primeiro turno, apresentado um programa de governo, ele nos lança toda sorte de promessas – algumas das quais em franco contraste com sua gestão como governador de São Paulo – sem esclarecer como concretizá-las. O caráter errático de sua campanha justifica ceticismo quanto à consistência de seus compromissos. Seu discurso pautado por conveniências eleitorais indica aversão à responsabilidade que se espera de nossos representantes. Ironicamente, os intelectuais associados ao seu projeto político costumam tachar o governo Lula e a candidatura Dilma de populistas (…)”

Continue lendo o Manifesto Filósofos pró-Dilma.

Marolinha verde

04/10/2010

As razões para se entender boa parte dos poucos mais de 19 milhões de votos dados a Marina Silva nesse primeiro turno eleitoral devem ser buscadas bem longe do ambientalismo ingênuo, representado por seguidores de Rousseau, que ainda acreditam que é a sociedade – e, com ela, a tecnologia – que corrompe nossa natureza e inviabiliza, por conseguinte, qualquer desenvolvimento sustentável, do ambientalismo zen, representado por nudistas, maconheiros, ripongas e demais espécimes da fauna odara, do ecocapitalismo e, por fim, do ambientalismo sério, felizmente, maioria no Partido Verde brasileiro.

E isso porque o discurso vago e o programa genérico dos verdes no Brasil só conseguiram atrair, até hoje, esses militantes. Do contrário, não haveria como se explicar o fato da dita onda verde não ter conseguido eleger sequer um governador ou senador; os quase vinte milhões de votos no PV elegeram nada mais, nada menos do que 12 deputados federais e 34 estaduais, em todo o Brasil. Como explicar que alguém que deseja uma orientação “verde” – discutível, aliás, se sua plataforma é capaz de dar conta de uma representatividade satisfatória e legítima, em nível nacional; um PV, mal ou bem, não deixa de soar como um “Partido da Cultura”, ou um “Partido da Agricultura”, parecendo historicamente fadado ao sectarismo ou a alianças de ocasião com o pior do conservadorismo, como é o caso atual dos verdes na Europa – para a economia e a política da nação não deseja isso para seu próprio estado, para sua Assembleia Legislativa, para sua Câmara Federal e para seu Senado? Estamos falando, afinal, de quase vinte milhões de votos…

Até porque todo militante sério da causa ambiental sabe que Marina Silva, enquanto ministra do Meio Ambiente, assinou embaixo, durante sete anos, por vezes discordando, mas não a ponto de romper com o governo, o que só ocorreu no apagar das luzes dos prazos de filiação partidária, de todas as políticas públicas para a área implementadas pelo governo Lula. Todas as concessões feitas à bancada ruralista passaram pelo crivo da então ministra, que parecia nelas não ver maiores problemas. De uma hora para outra, porém – coincidentemente, ratifica-se, a poucos dias de se esgotar o prazo para novas filiações e a fim de se registrar candidaturas à Presidência da república por outros partidos políticos –, Marina Silva passou, de implementadora de políticas públicas petistas para a área ambiental, à severa crítica do programa ambiental e do governo petista. Ou a hipocrisia mudou de nome ou a candidata verde foi clonada e, no seu lugar, surgiu alguém sem memória. Aliás, a mesma memória que, em nome de seu cargo ministerial e da governabilidade petista, não poucas vezes desonrou…

Então, onde está boa parte dos votos de Marina Silva nesse primeiro turno?

Eles podem ser encontrados distribuídos dentre eloquente fauna política. Ambientalistas e ecologistas de ocasião, incapazes de discorrer sobre uma vírgula da história dos Partidos Verdes europeus, seus programas e bandeiras, bem como sobre a história da luta ambiental no Brasil; eleitores insatisfeitos tanto com o projeto neoliberal representado por José Serra e pelo PSDB, quanto com a gestão petista de Lula frente ao governo federal, suas alianças políticas e o programa de governo representado por Dilma Rousseff e pelo PT, nestas eleições; os chamados votos de protesto, que se dividem entre o candidato rebelde “da hora” – ou da “onda”, como preferirem -, papéis já representandos, sem qualquer constrangimento, pelo falecido Enéias e, mais recentemente, pela histriônica Heloísa Helena, e entre brancos e nulos; neoniilistas emos ecologicamente corretos, adolescentes e jovens adultos semialfabetizados politicamente, para os quais basta uma ecobag e um programa eleitoral que possa ser retuitado e, por fim, os famigerados antipetistas raivosos.

Os primeiros são, por definição, aproveitadores, e sobre esse tipo de gente não se tece maiores comentários; os segundos e os terceiros, por sua vez, têm todo o direito de optarem por uma candidatura alternativa à polarização política que tem dominado o cenário eleitoral brasileiro ou, o que também é uma posição política respeitável, de anularem seus votos; os neoniilistas emos, por seu turno, são um caso perdido tanto para a política quanto para a humanidade, e os antipetistas raivosos, por fim, são tão inconvencíveis quanto dispensáveis em qualquer democracia.

Prova disso é o resultado dessas urnas. Baluartes da moralidade pública, tais como Tasso Jereissati (PSDB-CE), Heráclito Fortes (DEM-PI) e Heloísa Helena (PSOL-AL), todos antipetistas raivosos por excelência, foram tirados do Senado pelos fundilhos nessas eleições.  Luciana Genro (Psol-RS), entre os mais votados na última eleição para a Câmara Federal no RS, pagou caro pelo seu antipetismo e por seu sectarismo, dessa feita não atingindo coeficiente eleitoral suficiente. Enquanto isso, 80% do senado eleito – e isso não implica nenhum juízo de valor acerca de sua qualidade, que fique bem claro – é composto por integrantes da base aliada ao governo Lula, o que garantirá, à Dilma Rousseff, melhores condições de governabilidade do que as conquistadas pelo próprio Lula. Roussef, por seu turno, é a candidata à presidência que mais recebeu votos em primeiro turno, proporcionalmente, na história política brasileira, superando até mesmo Lula. A diferença entre Lula e Geraldo Alckmin, no primeiro turno de 2006, foi de 7 milhões de votos, enquanto a diferença entre Dilma e Serra, nesse primeiro turno, foi de 14 milhões de votos.

Mas dirão, por certo, que o povo brasileiro não sabe votar, ou que reelegerá o projeto petista porque troca seu voto por migalhas, ou, pior, que não está maduro o suficiente para uma candidatura da envergadura moral e política de José Serra ou de Marina Silva. Até quando vai continuar esse falso argumento, em geral oferecido por essa gente, uma elite politicamente semianalfabeta – que sequer tem noção das diferenças de fundo entre políticas públicas como o bolsa-família, estimulantes da autonomia, e de clientelismos como um “vale-gás” ou “bolsa-renda” , políticas sociais da era FHC, e que classifica políticas compensatórias e ações afirmativas como “racismo” – de que o eleitor não sabe o que é melhor para si, e que vota em Dilma e no PT por ser pobre, ignorante e manipulável? Até quando os mesmos boçais vão repetir a cantilena de que todo pobre não tem autonomia intelectual? Se esse fosse o caso, o que poderíamos dizer, então, dos almofadinhas que conheceram ontem o arremedo de projeto de desenvolvimeno econômico sustentável apresentado por Marina Silva nessa campanha? Quem mesmo é manipulável no atual cenário político brasileiro, quem mudou de faixa econômica graças ao governo Lula ou quem vota contra o projeto petista, mesmo que isso signifique o retorno ao retrocesso neoliberal ou, o que talvez fosse pior, um mergulho na absouta ausência de um projeto de desenvolvimento verde minimamente viável politicamente? Como alguém é capaz de votar em personalidades, em discursos de ocasião, táo fáceis de se montar quanto um penteado e um sorriso falso, deixando de lado histórico de lutas partidárias, projetos postos em prática, histórico de lutas pela democracia? Quem mesmo é ignorante e manipulável?

Resta à aliança construída em torno da candidatura Dilma procurar o ambientalista convicto, aquele militante histórico com bons argumentos e capaz de sopesar, sem rancor e com maturidade política, os programas em jogo neste segundo turno eleitoral, a fim de eleger aquele que melhor representa o ideário ambiental no atual cenário político nacional. Se o projeto de desenvolvimento sustentável historicamente abrigado no PT – no qual militaram e do qual se originaram, p. ex. as principais lideranças verdes, como Marina Silva e Gabeira –, que está distribuindo renda, gerando empregos e propiciando o crescimento do país, mas que, sem sombra de dúvidas, precisa ser aprimorado sob o ponto de vista ambiental, principalmente fazendo menos concessões ao maior atraso da política brasileira, a dita bancada ruralista, ou o crescimento econômico elitista e ambientalmente depravado, representado pelo neoliberalismo de José Serra e Fernando Henrique Cardoso. E resta ao PV, por seu turno, saber se realmente quer crescer à qualquer custo.

Todos os outros que surfaram na marola verde – à exceção dos eleitores insatisfeitos com os projetos que polarizam a política nacional, atualmente, e do voto de protesto consciente e fundamentado – são absolutamente dispensáveis para a democracia brasileira, ou bem por pura e simples ignorância, ou bem por representarem o que há de mais baixo em qualquer política, a saber, o ódio gratuito, a verdadeira antessala de todo totalitarismo.

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