Conheço o Paulinho desde meados dos anos 80, quando nos mudamos para a legendária Barão do Ladário, em Santiago. Conosco – comigo, meu irmão, minha irmã e meus pais – levamos um amigo de família, daqueles de berço, o Boca cão, vulgo Mauro. Dali em diante, poucas vezes não jogamos juntos futebol – na casa do Eduardo e do Bolão -, vôlei, basquete e tênis – na casa do Antônio Maria. Éramos nós quatro, mais os acima citados, e Marlon, Batista, Hamílton, Brucutu, Sofá, Fernando Júnior, Lucho, Faccin, Paulinho Cannales, Rogério Manzoni, Rui fala fina, Paulo, Marcelo Gasolina, Secão e os inúmeros não-atletas, como o Cassanta, Jerry, Clécio, Juliano, Fabinho, Marquinhos e Dudu, esses dois últimos durante o verão.
Bons tempos. Quase tudo que aprendi – para o bem e para o mal – saiu dessa convivência. Éramos livres – não havia violência, facas ou armas, e ainda se brigava no soco, só entre dois. Andávamos de bicicleta nas pistas de bicicross que construíamos e futebol nos campos que capinávamos. Tênis era kichute – menos os do Bolão e do Eduardo, que eram ricos – e bola de couro era luxo, mas ninguém reclamava. Furtávamos frutas. Jogamos bolita e o Clécio era o “purinho”. Caí do segundo andar de um prédio em construção, ao lado da delegacia, mas não quebrei nada. Jogávamos futebol no Clube Sete e batíamos bola, dois contra dois, no Grêmio, quando então enxotávamos o Mosquito e o Cabeção, que moravam perto e também queriam a quadra nos intervalos. Comprávamos picolé de limão na lancheria do pai do Paulinho e chicletes, pois colecionamos as figurinhas das Copas de 82 e 86, e o mais batido era o Valdano. Aprendi a jogar vôlei em frente à casa do Batista e fui campeão de futebol de botão da rua, na casa do Lucho. Vi o Boca bater solito em três sujeitos na quadra do Clube União. O Paulinho era o que melhor ia no colégio, mas Marlon, Antônio Maria e Hamílton também eram ótimos alunos. Paulinho era modelo, pois estudava em colégio estadual e passou na Federal, embora eu não entendesse como alguém que tinha as coleções completas de Zagor e Tex tivesse tempo para estudar. Seu irmão já fazia medicina na UFSM. Dávamos a volta no quarteirão correndo para ver quem a fazia em menos tempo. Brincamos de “bichinho” na piscina do Círculo Militar e quem ficava mais tempo era o “patão”. Ninguém queria dirigir antes dos 18 – talvez o Eduardo, que era o mais metido a gatão – e videogame era o Atari, mas poucos davam bola para algo que só se podia fazer na sala de casa. Quando a delegacia estava sendo construída, chovia e o terreno alagava; então, andávamos de barco em cima da lataria de uma kombi velha. Explodi um rojão dentro de tijolos, para espalhar o som, dentro da delegacia em construção, para assustar os caseiros – o Maguila e sua esposa -, e tomei uma coça em casa. Apanhava na rua, pois era o mais franzino e metido, quase boca-suja, mas não contava para meus pais. Boca e meu irmão me defenderam várias vezes. O Jerry tinha um laboratório nos fundos de casa e construía rádios. Soltávamos pandorga no campo do Cristóvão Pereira, o “Estadual”. Nunca mais ouvi falar do Samir, do Roque, do Vilmar e do Claudemir. Os catarinas eram bons no futebol. Quem melhor empinava a bicicleta era o Inar. O karatê não lutava nada, embora tive um “nuntchaco”. Jogávamos futebol em frente à casa do Leandro Minuzzi – eu, ele, Gasolina e Fernando. O Batista tornou-se o melhor jogador de futebol que Santiago já teve, o Rui virou profissional e o Sofá jogou nos juvenis do Grêmio FBPA e futsal na elite gaúcha. O Cabana bateu um pênalti na tabela de basquete, num torneio no Grêmio, daqueles organizados pelo professor Pasquoto. O nome do nosso time era Sepultura F. C. e, até hoje, alguns tentam entender como o Rogério Manzoni pôde ter sido titular. Reclamei em casa de minha condição de reserva e meu irmão não jogaria mais se eu não entrasse no time. O Mozart era meu colega no Medianeira e o Alf chegou no final da década, no dia em que o Inter perdeu a final do brasileirão para o Flamengo. A Catarina tinha uma horta no terreno ao lado da delegacia e a Dona Eustélia tinha uma cadela buldogue. O “Secretário” almoçava todo dia na casa do seu Vilmar Donini e quase todos cortavam o cabelo no salão do pai do Clécio. Havia dezenas de crianças e adolescentes na rua e todos brincavam juntos. Nos Natais e reveillons, todos saiam à rua e cumprimentavam os vizinhos. O Cleudo era temido, pois mais velho e maior, e irmão do Vanir. O José Luiz Bordinhão era vizinho do Maria e meu colega no colégio. Uma vez, briguei com o Rossano, e na frente da casa dele, também na esquina, existia um boteco.
Não, eu não me arrependo de nada, e não faria outras escolhas, mesmo se pudesse. Mudá-las seria programar o cérebro para esquecer certos traumas, como querem alguns psicólogos e neurocientistas. Todavia é isso, nossa história, que nos define.
E, sim, é por isso que a definição que Paulinho se deu em seu perfil está correta. Ele tem um baita caráter, uma integridade ímpar e é estourado mesmo, embora eu nunca o tenha visto se estourar sem uma boa razão – nisso ele e Boca sempre foram muito parecidos: pouca tolerância para as bobagens alheias. Cometeu erros como todos cometemos e cometíamos, mas não lembro de alguém, algum dia, ter sido prejudicado pelo que fazíamos. Ainda não se punha fogo em mendigos e a violência não havia se banalizado a ponto de virar referência pop, aliás.
É muito fácil se escrever um depoimento sobre um cara que se admira, mais ainda quando ele faz parte de nossa história.
Um abraço, Paulinho.








01/09/2011 às 21:08
Bah, teu! Muito jóia!!!
Valeu ler até o final…. tu sabes que não sou, faca, muito chegado a leitura, heheheheehhe.
Jóia!!!
20/05/2011 às 13:25
Ola Marcelo…
sempre bom te ler. O texto e otimo, e me trouxe muitas lembrancas boas. realmente, ainda nao se punha fogo em mendigos. Nem pixavam-se predios como hoje… a brincadeira mais perigosa que se fazia, era apertar as campainhias das casas vizinhas e depois correr.
abbracos
pinheiro
16/05/2011 às 12:27
Muito bonito esse texto! me lembrei da minha infância com os vários amigos,e até hoje alguns que continuo cultivando.
Abraços