O Grupo RBS limitou-se a reproduzir nota divulgada nessa segunda, 29, pelo Ministério Público do Trabalho (MPT), relatando sua atuação contra o Departamento Municipal de Água e Esgotos (DMAE) de Porto Alegre e a empresa Marco Projetos e Construções Ltda, responsáveis pela obra da estação de bombeamento de esgotos no loteamento Jardins do Prado, no bairro Hípica, na zona Sul da capital.
No último sábado, 27, onze trabalhadores foram soterrados, após desabamento de laje no canteiro da referida obra. Dois deles morreram e nove ficaram feridos.
Valter Souza, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil, esteve no local do acidente e afirmou que os operários trabalhavam sem cabos de segurança e que havia problemas de escoramento na obra. Afirmou, ainda, que a documentação dos trabalhadores estava irregular e que trabalhavam sem carteira assinada.
Embora o braço impresso do grupo empresarial gaúcho insista em afirmar que a responsabilidade da obra realizada pela construtora Marco Projetos e Construções é do DMAE, a nota do Ministério Público sustenta que a responsabilidade é de ambos, como pode ser comprovado pela matéria de ZH e pela nota do MPT.
É improvável, porém, que tamanha afobação e ênfase na responsabilização exclusiva do Departamento tenha algo a ver com o fato do Grupo RBS manter um braço imobiliário representado pela Maiojama participações Ltda. Esse tipo de especulação só seria o caso se alguma obra da referida empresa já tivesse sido embargada, pelo MPT, por conta de irregularidades trabalhistas, tais como risco de desabamento, fios desencapados e falta de equipamentos de segurança para os trabalhadores. Somente assim poderíamos supor que a família Sirotzki, em função de afinidades e interesses empresariais, prefere fazer vistas grossas para as responsabilidades de seus pares, empurrando para o setor público a fatura por eventuais descuidos privados.
Todavia, como sabemos que o Grupo RBS crê que uma empresa de comunicação deve se alicerçar na busca da informação verdadeira e na transparência de suas relações – e nenhuma delas é tão transparente quanto a existente entre Zero Hora e Maiojama –, é evidente que a busca pela informação não precisa ir além daquilo divulgado pela nota pública do MPT. Trocando em miúdos, é o que basta para que fique claro que, embora realizada pela empresa Marco Projetos e Construções, a responsabilidade pela obra e por eventuais desabamentos é, única e exclusivamente, do DMAE.
Em função disso, não há motivo algum para se supor que é de interesse público informar que, além do Termo de Compromisso de Ajustamento de Conduta firmado entre o MPT e a Marco Projetos e Construções – obrigando a referida empresa a fornecer, gratuitamente, equipamentos de proteção individual (EPIs) adequados ao risco e em perfeito estado de conservação e funcionamento, água potável, filtrada e fresca e instalações sanitárias situadas em locais de fácil e seguro acesso, além de dotar as escavações realizadas de sinalização de advertência e barreira de isolamento –, em face do Inquérito Civil nº 002619.2009.04.000/5, instaurado pelo MPT contra a referida empresa em janeiro de 2010, também há Portaria publicada pelo MPT, essa em 2011, a fim de instaurar, contra a mesma empresa, outro Inquérito Civil, dessa feita tendo por objeto “a apuração dos fatos relacionados à prática de terceirização da execução de sua atividade-fim, em fraude à legislação trabalhista”.
E isso porque a Marco entende sua responsabilidade social empresarial como uma forma de gestão “que se define pela relação ética e transparente da Empresa com todos os públicos com os quais ela se relaciona” – incluídos aí colaboradores, terceirizados, fornecedores, Estado e afins – e pelo estabelecimento de metas empresariais compatíveis com o desenvolvimento sustentável da sociedade e capazes de promover, inclusive, “a redução das desigualdades sociais”. Uma coisa divina e maravilhosa, como diria certo antigo compositor baiano.
Como tudo é lindo nesse mundo empresarial, quem se importa com a transparência das relações estabelecidas entre empresas privadas e seus públicos também gosta de saber, exatamente, de quais públicos se fala.
A Marco Projetos e Construções, p. ex., além de fornecedores, clientes e colaboradores, também gosta de se relacionar com políticos, alguns deles preocupados com as causas populares, outros, com as causas da popular. Foi por isso que, na campanha eleitoral de 2010, doou R$ 2.500,00 para Paulo Odone Chaves de Araújo Ribeiro (PPS), R$ 5.000,00 para Mauro César Zacher (PDT) e R$ 30.000,00 para o progressista Adolfo José Brito, todos candidatos à Assembleia legislativa guasca.
Nas próximas eleições, portanto, não deixe de verificar quais empresas apóiam seus prováveis candidatos. Se tais empresas respeitarem a legislação trabalhista e se preocuparem com a segurança de seus colaboradores, não pense duas vezes. Se, além disso, estabelecerem suas metas empresariais levando em consideração a redução das desigualdades sociais, vá de olhos fechados.









07/09/2011 às 10:53
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