Quem te viu, quem te vê

15/09/2011

tarso

 

É o reflexo mais autêntico das luzes do iluminismo transformador das grandes revoluções em outros países

Do governador Tarso Genro, na manhã dessa quarta, 14, ao receber a “Chama Crioula” e acender o “Candeeiro do Palácio”, que assim permanecerá até o dia 20, data máxima das comemorações farroupilhas.

 

 

Segundo o governador, os eventos do “decênio heróico” não foram um mero “reflexo” das aspirações iluministas de então, mas o “mais autêntico” (sic) dentre todos aqueles que por suas luzes se guiaram.

Deixemos de lado especulações sobre o mundo possível onde coisas seriam mais, ou menos, autênticas do que outras.

É uma afirmação forte. Uma coisa é ser [i] uma reflexão autêntica de algo, outra é ser [ii] o seu “mais autêntico” reflexo. Em [i] temos algo comum a muitos, mas em [ii] algo exclusivo, único. [ii] tem algo que todos em [i] almejam. Em [i], todos são desajeitados arremedos, enquanto [ii] é cópia fiel. Em [ii] há identidade lógica entre a coisa e sua correspondência, produzida pela reflexão daquela; em [i], porém, há mera semelhança entre tal coisa e seus pálidos reflexos.

La Vieja tirou o pó de seus cadernos a fim de verificar se também poderia haver um mundo possível no qual os ideais farrapos pudessem ser idênticos aos iluministas.

A hoje idolatrada e cultuada “República Farroupilha” foi, durante 8 de seus quase 10 efêmeros anos, uma República sem Constituição, por mais contraditório que isso possa parecer. Some-se a isso o fato de que, na matraqueada “democracia farroupilha“, os direitos a exercer o voto e a concorrer a um cargo eletivo eram determinados pela religião professada e pelo poder econômico dos então “cidadãos de bem” (Constituição de 1843 da República Rio-Grandense, Art. 91-95). Em função disso, 1% dos então 400.000 habitantes da Província foram às urnas, em 1842, para eleger os deputados que formariam a “Assembleia Representativa e Constituinte“ que, eleita, só em 1843 – dois anos antes da rendição farrapa – elaborou seu “Projeto de Constituição” [i].

De acordo com esse projeto, seria considerado cidadão rio-grandense todo “homem livre” nascido no território da República (Art. 6º). Negros aqui nascidos, portanto, seriam tão cidadãos quanto os cavalos de seus proprietários. Se isso não nos dá uma boa ideia das luzes do iluminismo transformador que orientavam o liberalismo dos estancieiros farrapos, a adoção de uma religião oficial – a católica apostólica romana, por supuesto – não deixa qualquer dúvida acerca da autenticidade de seu reflexo. Todas as outras religiões seriam permitidas, desde que restritas ao “seu culto doméstico, ou particular em casas para isso destinadas, sem forma alguma exterior de templo” (Art. 5º).

Era tanta liberdade religiosa que, depois de publicada, a referida Constituição deveria ser “jurada em todo o território da República”, sendo que aqueles que a isso se recusassem perderiam “os foros de cidadãos Rio-Grandenses“ (Art. 232).

É evidente que detalhes – como o fato do movimento farrapo ter se circunscrito “aos limites da classe dominante, pecuarista, latifundiária e escravocrata”, aos ”‘cidadãos’ que se autodenominavam o ‘povo do Rio Grande’” – não distorcem em nada o mais autêntico dos reflexos do iluminismo transformador que inspirava nossos esclarecidos estancieiros. Pouco importa, também, que arrastassem, junto a si, “seus empregados e dependentes para lutarem num movimento em torno de causas alheias aos horizontes destas camadas dominadas(ii).

O que detalhes assim poderiam significar, considerando-se que estancieiros, escravos e peões eram iguais entre si? Todos participavam da mesma roda de chimarrão, do mesmo galpão e das mesmas lides de campo, com indumentária semelhante. Inexistia desigualdade social na estância; donde, por conseguinte, a propalada “democracia sulina”. A dominação do estancieiro sobre seus subordinados, nessa democrática convivência, só foi possível graças à sua “superioridade inata, cultural e moral“, uma espécie de força da natureza que emanava de seu telurismo (iii).

Nada mais iluminista e esclarecedor, como se vê.

É profundamente triste constatar o quanto a espinha de um intelectual do porte de Tarso Genro é capaz de se dobrar diante do político que telefona para latifundiários pedindo carnes para assados, que trai suas mais íntimas convicções (iv) em nome do “tradicionalismo de espetáculo – inventado e curado nas charqueadas da ignorância“ e que, tal como a historiografia oficial e por conta de alguns trocados pragmáticos, glorifica um mito.

Essa glorificação do gaúcho – construída a partir do (i) enaltecimento de um passado guerreiro, característica adquirida em função de nosso “caráter fronteiriço e militarizado“, da (ii) apropriação e ressignificação de um peculiar sentimento de nacionalidade (v) e, por fim, da (iii) heroicidade simbolizada pela revolução farroupilha, não à toa alcunhada de “decênio heroico”, quando a altivez e a honradez do gaúcho rio-grandense peleou, pelas coxilhas, contra o elemento subjugador, em nome de um “liberalismo visceral“, idealização que consagrou, no imaginário coletivo guasca, como verdadeira “epopeia“, os ditos “ideais de 1835” (vi) é a grande responsável pelos nossos tradicionais ufanismos desmedidos de setembro, e não são poucas suas consequências.

Não vem de outro lugar nossa petulância esquizofrênica, nossa pretensa superioridade intelectual e moral em relação ao restante do Brasil, nosso separatismo irrefletido, nossa maior politização, nosso preconceito de raça, nosso orgulho inconsequente, desmedido e parlapatão. Só isso é capaz de explicar afirmações como as de que “o Rio Grande do Sul deve servir de exemplo às forças políticas no combate à corrupção”, e de que é o 20 de setembro “a data mais importante do país”.

Hay os que se perdem por perder raízes que não acham mais”, é bem sabido. Mas também “Hay os que se encontram por voltar às fontes dos seus ancestrais", como bem disse o missioneiro Cenair Maicá.

Quem te viu, quem te vê, Tarso Genro.

 

 

_____________________________

[i] Tau Golin. A tradicionalidade na cultura e na história do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, Tchê!, 1989.

(ii) Sandra Jatay Pesavento. Farrapos, Liberalismo e Ideologia, in “A Revolução Farroupilha – História e Interpretação”. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1997. 2.ed, pp. 5-29. p. 28.

(iii) Sandra Jatahy Pesavento. Historiografia e Ideologia, in “RS: Cultura e Ideologia”. Org. de José H. Dacanal e Sergius Gonzaga. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1980. Série Documenta, 3, pp. 60-87, pp. 71-74.

(iv) Não se trata de especulação. Para Tarso Genro, a relação de dependência e afetividade entre fazendeiro e peão contribui para a compreensão dos “motivos que determinavam a mobilização dos ‘vastos contingentes humanos’ (os homens despossuídos do campo) em guerras que, concretamente, nada, ou muito pouco, significavam para a melhoria de suas condições de vida e de trabalho” (Tarso Fernando Genro. RS, Tradição Jurídica e Relações Políticas: Um Estudo Introdutório, in “RS: Cultura e Ideologia”. Org. de José H. Dacanal e Sergius Gonzaga. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1980. Série Documenta, 3, pp. 89-112, pp. 71-74; p. 90). Também é do agora governador a tese de que “os pressupostos materiais da liderança do fazendeiro e da fidelidade dos peões e agregados repousam, então, na propriedade da terra pelo primeiro, como unidade produtiva, e na baixa taxa de apropriação de ‘mais-valia’ em face de produção extensiva; os pressupostos ideológicos decorrem de uma identificação (objetivamente falsa) entre o latifundiário e o peão, pelos costumes, pela linguagem e pelo trabalho” (p. 92). E não é de outro autor a afirmação de que “a Constituição Farrapa de 1843, republicana na forma, não só admitia a escravidão – em que pese houvessem negros libertos lutando pela ‘república’ – mas indicava o catolicismo como religião oficial e aceitava como eleitores uma estreita faixa de cidadãos, discriminando-os pelo rendimento, como se lê em seu artigo 92, item VII” (p. 93).

(v) Pois vítima da esquizofrênica convivência, em seu nobre espírito, da vontade de se separar do Império e de, “à ponta de lança e pata de cavalo“, demarcar suas fronteiras. A respeito desse traço esquizóide de nossa heróica formação, bem como de sua conveniente ocultação pela historiografia oficial, é importante anotar que, “Mesmo após a entrada de referenciais culturalistas de análise – o que viria a acontecer só na década de 1950 –, os historiadores trataram de conciliar o ideário republicano aos enunciados dos eruditos do Império, revertendo a pecha de estado limítrofe com a ‘barbárie’ castelhana em condição de sentinela da fronteira austral da ‘América Portuguesa’. Sob esse critério, a tese separatista da Revolução Farroupilha chegou a ser, nas palavras de Moysés Velhinho, ‘arquivada’, após ter sua interpretação convencionada pelo Congresso promovido pelo IHGRS em alusão ao Centenário Farroupilha, em 1935. Desde então, os historiadores todos se referiam a ela de um mesmo modo: como uma revolta de inspiração republicana e liberal, em defesa da integridade moral de um Império desatento às necessidades da província” (Letícia Borges Nedel. Regionalismo, Historiografia e memória: Sepé Tiaraju em dois tempos. Anos 90, América do Norte, Vol. 11, No 19/20, dez. 2004, pp. 359-360).

(vi) Sandra Jatahy Pesavento. Historiografia e Ideologia, in “RS: Cultura e Ideologia”. Org. de José H. Dacanal e Sergius Gonzaga. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1980. Série Documenta, 3, pp. 60-87; pp. 67-71.

4 Respostas para “Quem te viu, quem te vê”

  1. Jeferson Diz:

    Em nome da exatidão: ser negro e ser escravo eram coisas diversas. Embora só houvesse escravos negros, nem todo negro era escravo. Por isso, naquela parte em que você fala sobre os negros não estarem incluídos no conceito de cidadão, seria preciso você alterar o vocábulo “negros” pelo vocábulo “escravos”. No mais, parabéns. Bela análise.


    • Tens razão, Jéferson. A despeito das condicionais em geral presentes nas cartas de alforria – “livre desde que continue prestando serviços para x até sua morte” -, um filho de escravos libertos seria um exemplo de “homem livre” negro. Formalmente, portanto, um cidadão.

  2. clandio Diz:

    Vivendo e conhecendo os homens. o Tempo faz com que as pessoas se mostrem como realmente são, como realmente pensam. Confesso que esperava bem mais do Governador Tarso. No fundo são todos iguais. Enquanto candidatos sao ideais e exemplares. Quando assumem o Poder, são obrigados a viver a ralidade.

  3. Cesar Diz:

    Impressionante, não? Tarso deixou de lado o debate baseado na verdade pra partir pra negociação pura e simples: ele faz de conta que o passado fajuto dos gaúchos é verdadeiro, os gaúchos o aplaudem. É a velha barganha da verdade pelo poder, a qual sempre dá certo por aqui, no RS, pois somos viciados em forjar passados autoglorificantes.


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