sobre finais de semana

19/01/2012

Eu não gosto da cobertura de Zero Hora sobre mortes por acidente de trânsito no estado. A abordagem do problema sofre de um viés sensacionalista, o que sugere um tratamento meramente mercantil da informação, algo pequeno comparado ao potencial de ZH.

Dá-se demasiada atenção ao número de mortes, divulgadas com estardalhaço principalmente quando ocorrem durante períodos que envolvem datas comemorativas – neles, por óbvio, há maior circulação de veículos e excessos envolvendo drogas lícitas e ilícitas; donde, maiores riscos de acidentes.

Em regra, o número absoluto de mortes ocorridas num determinado período é comparado com aquele que lhe antecedeu. Esse tipo de analogia muda, que não vai além da mera divulgação de dados descontextualizados, parece sugerir que o que está em jogo é, tão somente, uma lúgubre competição entre datas. Embora se trate de um tipo de informação, nele não vislumbro nada além da intenção de chocar o leitor e o convidar, pela manchete, ao texto, em geral um mero desdobramento estatístico daquela.

Essa orientação editorial parece ser a responsável pela mudança semântica da expressão “final de semana”, recentemente operada por ZH: em função da natureza excepcional de feriados capazes de o prolongar, o final de semana zeroriano começa na zero hora [00:00] de sexta-feira e termina ao meio-dia [12:00] de segunda. Ora, como sexta, sábado e domingo totalizam três dias, e as doze primeiras horas de segunda, metade de um deles, o final de semana de Zero Hora, no final das contas, dura a metade de uma semana – que ainda costuma ter sete dias.

É natural, portanto, que números chocantes possam ser apresentados como eloquentes estatísticas, muito embora não passem de mera mercantilização da informação. Assim, mais jornais impressos são vendidos, mais acessados são os veículos virtuais e mais audiência rádio e TV recebem, o que implica bons argumentos de venda de espaços publicitários.

ZH chegou ao absurdo de incluir uma morte por causas naturais entre as ocorridas em consequência de acidentes de trânsito, tudo em nome no inchaço artificial das estatísticas de sua peculiar noção de final de semana.

E há antecedentes. Não esqueçamos que, simultaneamente à realização de um festival musical – o “Planeta Atlântida, voltado ao público entre 14 e 30 anos – patrocinado por uma fabricante de drogas lícitas – uma cervejaria -, o Grupo RBS veiculava a campanha de conscientização “Violência no trânsito: isso tem que ter fim”, cujo público-alvo era, exatamente, o frequentador daquele festival musical.

Vamos a alguns dados desconhecidos dos leitores de ZH, então:

 

acompanhamento das mortes por acidente de trânsito no rs em 2012

 

58 pessoas morreram no trânsito gaúcho nesses 18 primeiros dias de 2012: 47 (81%) homens e 11 (19%) mulheres, numa média de 3,22 mortes por dia.

Dessas 11 mulheres, 07 (63%) tinham idade entre 18 e 30 anos. Dentre elas, somente duas dirigiam no momento em que se acidentaram, sendo que uma delas sequer viu o que lhe atingiu. Dentre as outras 04 vítimas, 03 foram atropeladas – duas (18%) idosas e uma (9%) criança – e uma (9%) dirigia no momento do acidente.

O menor número de mulheres dentre as 58 vítimas – somente uma dentre cada 05 é mulher – pode ser explicado pelo maior número de motoristas do sexo masculino – dos quase 4 milhões e 100 mil motoristas habilitados no RS, 30% são mulheres e 70%, homens – muito embora seja significativo o fato de que somente 27% delas (03 das 11 vítimas fatais) guiavam no momento em que se acidentaram. No caso dos motoristas do sexo masculino, esse número sobre para 61% – 29 das 47 vítimas fatais guiavam no momento em que se acidentaram; dentre as 18 restantes, somente uma delas (5,5% desses 18 e 2,1% do total de vítimas do sexo masculino) foi vitimada por veículo conduzido por mulher.

Ou seja, homens matam mais a si mesmos, outros homens e mulheres do que mulheres matam homens, outras mulheres e a si mesmas.

38% (18) das vítimas do sexo masculino (47) tinham entre 19 e 30 anos, faixa etária que já é assídua frequentadora dos plantões policiais, hospitalares e jornalísticos. Dessas 18 mortes, 10 delas (55%) ocorreram entre 22:00 e 07:00, período no qual velocidade, farra e drogas lícitas e ilícitas costumam pedir carona.

Oito (17%) dos 47 homens mortos no trânsito gaúcho desde o início do ano tinham entre 31 e 40 anos, e 06 (12%) entre 41 e 50. Quatro (8,5%) dentre esses 47, por sua vez, tinham entre zero e 18 anos.

10 (21%) deles tinham mais de 50 anos. 80% deles não teve nenhuma culpa pelo acidente que os vitimou: um era passageiro, dois eram motoristas, dois conduziam suas bicicletas e três deles foram atropelados – um, duplamente, e dois, por motoristas alcoolizados. Rosalvo kaddatz, de 62 anos, sequer chegou a ver o automóvel que invadiu a pista contrária e lhe arrancou as duas pernas às 22:30 do último dia 07, na localidade de Linha Ferraz, no interior de Vera Cruz, conduzido por Fábio Luiz Kappel, de 18 anos, que dirigia alcoolizado pela VRS 836.

38% dos acidentes envolvendo vítimas fatais nesses 18 primeiros dias de janeiro ocorreram entre 00:00 e 08:00. A mesma porcentagem ocorreu entre as 16:01 e 23:59, e 24% deles entre as 08:01 e 16:00. Os períodos de menor resistência física e de maior circulação de automóveis, associados à pressa para se chegar em casa e ao consumo de drogas lícitas e ilícitas, levaram, juntos, 76% dessas 58 vidas.

43% dessas 58 mortes ocorreram em rodovias estaduais, e 27% em rodovias federais. 5% delas ocorreram em zonas rurais, e 25%, em zonas urbanas. Nesse último caso, destaque para 06 mortes (40%) envolvendo motocicletas, 04 (26%) por atropelamento – duas idosas e duas crianças – e 03 (20%) envolvendo bicicletas e veículos automotores.

19% dessas 58 mortes envolveram choque entre automóveis. O mesmo percentual envolveu choque entre motocicletas e outros veículos automotores. De modo semelhante, 19% envolveram choque entre automóveis e caminhões e/ou ônibus.

15% dessas mortes ocorreram devido a atropelamentos e 7% delas envolveram choque entre bicicletas e veículos automotores. 1,7% delas envolveu choque entre caminhões e ônibus.

12% delas ocorreram devido a capotagens de veículos automotores, 5% devido a choque de veículos automotores contra obstáculos fixos e 3,4% devido a quedas diversas – perda de controle do veículo e queda de barrancos, pontes, etc.

 

 

São somente números, também. Porém, cruzamento de dados como esse servem para que os responsáveis pelas políticas públicas relacionadas ao trânsito gaúcho saibam que, se o número de mortes em zonas urbanas é semelhante ao de rodovias federais, e se idosos e crianças morrem mais em zonas urbanas e devido a atropelamentos, então uma campanha, ou mesmo uma política pública, não pode desconsiderar o fato de que há públicos-alvo completamente diferentes a serem atingidos, pois o que morre em BRs não é semelhante ao vitimado em zonas urbanas. Quando o assunto envolve recursos públicos não há espaço para experimentações: é preciso acertar o alvo otimizando recursos e esforços.

Essa, evidentemente, não é uma tarefa de ZH; aliás, sequer é minha. ZH informa do jeito que lhe convém e conversa encerrada.

Contudo, simplesmente somar o número de mortes por acidente de trânsito ocorridas num determinado período parece-me coisa que até os assinantes de ZH são capazes de entender. Talvez eles mereçam um pouco mais.

 

 

Pretendo continuar atualizando o mapa das mortes por acidente de trânsito no rs em 2012. Caso alguém queira colaborar com algum dado que tenha passado despercebido, há como comentar. Correções, críticas e sugestões também serão apreciadas.

2 Respostas para “sobre finais de semana”

  1. André Marin Diz:

    O uso de dados estatísticos serve apenas para estimular o início do debate. Qualquer conexão desses dados com a realidade, do que vai acontecer hoje ou amanhã, é mera suposição com base probabilística, enfrentada cientificamente no debate entre frequentistas e bayesianos, ou suposição mítica, se desprovida da inferência probabilística adotada.
    Entendo que, no caso do trânsito, cabe o estimulo às regras de boas maneiras, dar prioridade ao transporte público, deixar passar o atarefado para o serviço, priorizar o pedestre e o ciclista, andar a pé, trocar o carrão pelo carrinho, etc.
    Carro é como roupa, os mais bem vestidos acham que devem ter prioridade; como armadura, os mais bem dotados podem intimar os inferiores. É como qualquer bem, que se adquire para impressionar os outros, para satisfazer aquele desejo de ser notado.
    Não consigo imaginar como alguém pode defender o direito de ir e vir preso dentro de um carro, mesmo que a altas velocidades na free-way.
    Como diz Thoreau: walking.


    • estás coberto de razão, andré. vou me informar sobre esse debate a fim de tentar contribuir com alguma suposição confiável. é sempre bom receber comentários qualificados, gracias.


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